Terremotos lentos ganham força como pista subterrânea, estudos mostram sinais úteis para antecipar grandes tremores e orientar preparo de risco

Vista de uma zona de subducção no oceano, onde uma placa tectônica mergulha sob outra
Zonas de subducção concentram energia e abrigam eventos lentos difíceis de detectar

Fenômeno silencioso e difícil de sentir, os terremotos lentos vêm ajudando cientistas a decifrar quando e por que rupturas perigosas podem acontecer nas zonas de subducção

Pesquisas das últimas duas décadas indicam que os terremotos lentos podem anteceder grandes abalos e oferecer pistas valiosas para a avaliação de risco. No México, um estudo recente liderado por Víctor Cruz-Atienza, do Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), identificou que eventos lentos precederam os quatro tremores de maior magnitude no país, incluindo os de 2017 e 2018.

Esses terremotos lentos são, nas palavras do pesquisador, deslizamentos ao longo de falhas que ocorrem especialmente em zonas de subducção, onde duas placas tectônicas se encostam. Eles não sacodem a superfície como os sismos tradicionais, porque a energia é liberada muito devagar.

Na prática, a energia acumulada se dissipa ao longo de semanas ou meses, tornando o fenômeno imperceptível e não destrutivo. Segundo Sergio Ruiz, do Departamento de Geofísica da Universidade do Chile, entender esses eventos abre uma janela para a física que controla os terremotos e pode, no futuro, aprimorar a antecipação de cenários perigosos.

Observações ao redor do mundo mostram que grandes abalos foram precedidos por episódios silenciosos. Entre eles, o terremoto de magnitude 9,1 no Japão em 2011 que gerou o tsunami e o acidente em Fukushima, o de magnitude 8,2 no Chile em 2014 e o de magnitude 7,8 na Nova Zelândia em 2016.

Como os terremotos lentos funcionam e por que não causam destruição

Os terremotos convencionais ocorrem quando a interação entre placas libera energia de forma brusca e a vibração chega à superfície. Nos lentos, há um escorregamento gradual na interface entre placas, em camadas mais profundas ou rasas, que redistribui tensões sem gerar vibração imediata na crosta.

Ruiz lembra que alguns eventos lentos alcançam magnitude 7, o que seria perigoso se a liberação fosse rápida. A diferença é o tempo: como o deslocamento se estende por semanas, o chão não chacoalha de uma vez só, reduzindo drasticamente o impacto na superfície.

Uma analogia ajuda a visualizar: mover uma mesa depressa sacode pratos e xícaras, mas empurrá-la bem devagar mantém os objetos quase imóveis. O princípio físico por trás dos terremotos lentos segue a mesma lógica do atrito e da velocidade de deslizamento.

Casos no México, Chile, Japão e Nova Zelândia que ligam eventos lentos a grandes abalos

Estudos associam episódios silenciosos a sismos que vieram depois. No Japão em 2011, um lento deslizamento antecedeu o abalo de magnitude 9,1 que provocou um tsunami e o desastre em Fukushima. Algo semelhante foi observado no Chile em 2014 com o tremor de magnitude 8,2, e na Nova Zelândia em 2016 com magnitude 7,8.

No sudeste mexicano, onde interagem a placa de Cocos (oceânica) e a placa Norte-Americana (continental), Cruz-Atienza identificou eventos lentos antes de quatro grandes sismos recentes. Entre eles, o de setembro de 2017, que derrubou prédios na Cidade do México, e o de fevereiro de 2018, próximo a Pinotepa Nacional, de magnitude 7,2. Segundo o pesquisador, o deslizamento lento alterou tensões na interface mais rasa e desencadeou a ruptura do tremor de 2018.

AspectoTerremoto rápidoTerremoto lento
Duração do eventoSegundos a minutosSemanas a meses
Liberação de energiaBrusca e concentradaGradual e distribuída
Percepção na superfícieForte tremor e ruídoGeralmente imperceptível
Magnitude possívelAlta, com danosAlta, sem chacoalhar
Risco imediatoElevadoBaixo

O que medem os cientistas, tecnologia de GPS milimétrica e periodicidade no México

Para detectar o que os olhos não veem, equipes utilizam GPS de altíssima precisão, capaz de medir deformações continentais com exatidão de cerca de 2 mm, explica Cruz-Atienza. Essas séries temporais revelam o rebote associado ao deslizamento lento na interface entre placas.

No Sul do México, a instrumentação já permitiu mapear uma periodicidade dos eventos: aproximadamente 3,5 anos no Estado de Guerrero e 1,5 ano em Oaxaca. Esse compasso está ligado ao deslizamento relativo entre as placas de Cocos e Norte-Americana.

Cada região do planeta exibe seu próprio ritmo, determinado pela geometria da falha, pelo atrito e pela presença de fluidos nas zonas de subducção. Por isso, comparar cronogramas entre países exige cautela e séries longas de observações.

Segundo Ruiz, a comunidade científica tem avançado ao correlacionar mudanças de tensão induzidas por eventos lentos com a probabilidade de ruptura abrupta em setores rasos. O essencial agora é expandir as redes de medição para reduzir incertezas e capturar melhor a evolução do sistema.

Nas últimas duas décadas, o registro de eventos lentos vem desvendando a física que governa os grandes terremotos e pode aprimorar nossa capacidade de antecipar cenários de risco, afirma Sergio Ruiz, da Universidade do Chile.

O que já se sabe, incertezas e próximos passos para previsão sísmica

Com a evidência atual, os especialistas reforçam que os terremotos lentos parecem ser uma condição necessária, mas não suficiente para a ocorrência de grandes abalos. Há muitos episódios silenciosos que não resultam em terremotos destrutivos, indicando que outros gatilhos ainda precisam ser esclarecidos.

Para avançar, é preciso mais pesquisa sobre a física do atrito na interface das placas e ampliar a cobertura de estações sismogeodésicas em regiões sísmicas. De acordo com Ruiz, aumentar a instrumentação terrestre é prioridade, e a América Latina ainda está atrás de outras áreas do mundo nessa infraestrutura.

Perguntas frequentes sobre terremotos lentos e previsão

  1. O que é um terremoto lento? É um deslizamento gradual ao longo de uma falha, geralmente em zonas de subducção, que libera energia ao longo de semanas ou meses e quase não produz tremor perceptível.
  2. Terremotos lentos sempre antecedem grandes sismos? Não. Segundo especialistas, eles podem ser uma pista importante, mas são apenas uma condição possível entre outras; nem todo evento lento resulta em um abalo destrutivo.
  3. Como esses eventos são detectados? Principalmente com GPS de altíssima precisão, que mede deformações da crosta com resolução de cerca de 2 mm, além de sismômetros sensíveis.
  4. Há regiões com ritmo conhecido de eventos lentos? Sim. No Sul do México, ocorrem em média a cada 3,5 anos em Guerrero e a cada 1,5 ano em Oaxaca, mas a periodicidade varia conforme a região e suas condições geológicas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tags: | |

Sobre o Autor

Geovane Souza
Geovane Souza

Criador de conteúdo com olhar atento para temas do cotidiano, curiosidades e assuntos que despertam interesse de forma leve e envolvente. Produz conteúdos sobre comportamento, cultura, estilo de vida, descobertas curiosas e tendências, sempre com uma abordagem acessível e próxima do público brasileiro.

    Update cookies preferences