Proposta de pagar em criptomoedas por foto da íris atrai multidões na periferia de São Paulo, ultrapassa 400 mil cadastros e é suspensa pela ANPD por risco à livre vontade
ANPD interrompe pagamentos do projeto de escaneamento de íris em São Paulo, alegando risco à livre manifestação de vontade segundo a LGPD
O projeto World, que troca o registro da íris por pagamentos em criptomoedas, acelerou em São Paulo desde o fim de 2024 e passou de 400 mil adesões até meados de janeiro. A expansão ocorreu com foco na periferia, onde o incentivo financeiro rondava R$ 600 por participante. A curva de crescimento levou o caso ao centro do debate sobre privacidade e proteção de dados no país.
Em 24 de janeiro de 2025, a Agência Nacional de Proteção de Dados determinou a suspensão da remuneração do programa, com efeito a partir de 25 de janeiro. De acordo com a ANPD, o pagamento poderia interferir na livre manifestação de vontade, especialmente em situações de vulnerabilidade e hipossuficiência financeira.
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A empresa por trás da operação, a Tools for Humanity, afirma que cumpre a legislação brasileira e contesta interpretações que, segundo ela, teriam levado a informações equivocadas ao órgão. A equipe sustenta que o protocolo busca diferenciar humanos de robôs em serviços digitais.
Apesar do corte da remuneração, a discussão permanece aberta sobre riscos, transparência das informações e futuro desse tipo de verificação biométrica, que a World vislumbra aplicar amplamente em redes sociais, bancos e serviços públicos.
ANPD suspende a remuneração, avanço na periferia acendeu alerta de vulnerabilidade
O ponto-chave da decisão foi a oferta de dinheiro como contrapartida ao registro biométrico. Segundo a ANPD, o pagamento em criptomoedas pode pressionar a escolha de indivíduos em condição de maior fragilidade econômica. O órgão é responsável por zelar pelo cumprimento da LGPD e já havia pedido explicações sobre o procedimento.
A medida atinge diretamente o mecanismo de incentivo, que até 24 de janeiro previa o repasse de 48 unidades de Worldcoin. Naquela data, a conversão aproximada era de R$ 615, com 20 moedas liberadas em 24 horas e outras 28 distribuídas mensalmente ao longo de um ano. O projeto seguia especialmente forte em bairros como Brasilândia, Cidade Dutra e Cidade Líder.
Como o World funciona, do app ao escaneamento da íris e ao pagamento que foi interrompido
O processo começa no World App, com um cadastro básico e aceite dos termos de uso e da política de privacidade. Em seguida, o usuário escolhe local, data e horário para a verificação, assiste a um vídeo sobre IA, privacidade e prova de humanidade, e passa pelo escaneamento com a Orb, uma câmera de alta definição que fotografa o rosto e cada olho.
Na etapa final do atendimento, a pessoa tira uma selfie dentro do aplicativo, conectada ao wi-fi do projeto, para confirmar que quem agendou é quem fez o escaneamento. Esse fluxo era, até 24 de janeiro, o passo anterior à opção de receber as criptomoedas Worldcoin, benefício agora suspenso no Brasil por ordem da ANPD.
Passo a passo do registro no World App
Segundo a operação local, as imagens captadas pela Orb são transformadas em um código numérico criptografado, enviado ao celular do usuário e depois fracionado em diversos pedaços. Esses fragmentos são guardados por parceiros considerados confiáveis, e o material é apagado da Orb.
Os parceiros citados pela empresa incluem a Universidade da Califórnia em Berkeley e a Universidade de Erlangen-Nürnberg, além da companhia de blockchain Nethermind, no Reino Unido. A promessa é de descentralização e anonimização robusta, com a alegação de que seria impossível reconstituir o código completo.
Na prática, a World diz preparar uma infraestrutura para autenticação humana em escala. A ideia é que, se bancos, redes sociais ou governos adotarem esse tipo de prova de humanidade, exista uma base prévia de indivíduos verificados, eliminando senhas e reduzindo fraudes.
Até 10 de janeiro de 2025, a empresa informava 10 milhões de verificações no mundo. No Brasil, a contagem em São Paulo parou de ser atualizada publicamente quando já havia mais de 400 mil participantes, cerca de dez dias antes da decisão da ANPD.
Veja um resumo dos principais números e marcos em 24 de janeiro de 2025:
| Indicador | Situação em 24/1/2025 |
|---|---|
| Participantes em SP | Mais de 400 mil (contagem cessou dias antes) |
| Pontos de escaneamento | De 10 em novembro para 51 |
| Pagamento ofertado | 48 WLD, cerca de R$ 615 |
| Liberação das parcelas | 20 WLD em 24h, 28 WLD ao longo de 12 meses |
| Alcance global | 10 milhões de verificações até 10/1/2025 |
Expansão rápida dos pontos em SP, números, bairros e os planos de ampliar o projeto no Brasil
O crescimento em São Paulo acompanhou a abertura de locais de escaneamento, que passaram de 10 para 51 entre novembro e 24 de janeiro. Muitos funcionavam próximos a estações de metrô, trens e terminais de ônibus, fora do Centro expandido e além de áreas nobres como Itaim Bibi e Jardins.
Segundo Rodrigo Tozzi, gerente de operações da Tools for Humanity, em entrevista de 17 de janeiro, havia planos de expandir para outras regiões do país. Até agora, porém, São Paulo é a única cidade brasileira com operação ativa do protocolo.
O destino dos dados biométricos, parceiros internacionais e decisões no exterior
A World sustenta que não retém os registros de íris e que os dados viram códigos divididos e hospedados por parceiros acadêmicos e de tecnologia. O argumento é que a arquitetura distribuída, com criptografia e fragmentação, oferece camadas adicionais de segurança e privacidade.
Apesar disso, a discussão regulatória não é exclusiva do Brasil. Na União Europeia, a autoridade de proteção de dados da Baviera, na Alemanha, determinou a exclusão de dados em todo o bloco, mesmo com as garantias de não retenção direta fornecidas pelo projeto.
“A infraestrutura está sendo criada para que a solução exista antes da necessidade.”
Especialistas em direito digital e inovação ouvidos por veículos de imprensa questionam se os participantes compreendem integralmente o que aceitam ao se registrar. Há dúvidas sobre a clareza do consentimento e sobre como, no longo prazo, os dados poderão ser utilizados em diferentes serviços.
Críticas de especialistas, informação insuficiente e dúvidas sobre consentimento
Para parte da comunidade técnica, a promessa de que a fragmentação inviabiliza qualquer reconstrução não elimina riscos operacionais e de governança. Também há preocupação com a assimetria de informação entre o projeto e usuários, sobretudo em regiões onde a motivação primária era o incentivo financeiro.
O caso abriu um debate urgente sobre consentimento informado em projetos de biometria e sobre a linha tênue entre incentivo e indução. Com a suspensão do pagamento determinada pela ANPD, o projeto precisará demonstrar mecanismos adicionais de transparência e proteção para sustentar a continuidade no país.
FAQ
1) O que exatamente a ANPD proibiu?
A ANPD suspendeu a remuneração oferecida aos participantes a partir de 25/1/2025, por entender que o pagamento pode afetar a livre vontade, especialmente de pessoas vulneráveis.
2) Quanto era pago aos participantes?
Eram 48 Worldcoin, cerca de R$ 615 na cotação de 24/1/2025, com 20 moedas liberadas após 24 horas e 28 distribuídas mensalmente por um ano.
3) Onde o projeto operava no Brasil?
A operação estava ativa em São Paulo, com expansão de 10 para 51 pontos até 24/1/2025, avançando de áreas nobres para bairros periféricos como Brasilândia, Cidade Dutra e Cidade Líder.
4) O projeto guarda as imagens da íris?
Segundo a World, as imagens viram um código criptografado, fracionado e armazenado por parceiros como Berkeley, Erlangen-Nürnberg e Nethermind, e seriam apagadas da Orb após o processo.
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