O USS Samuel B. Roberts, afundado em outubro de 1944 durante a Batalha de Samar, foi localizado em junho de 2022 a 6.895 metros de profundidade, quebrando o próprio recorde que havia sido estabelecido apenas um ano antes.
A Segunda Guerra Mundial deixou no fundo dos oceanos centenas de navios que nunca mais foram vistos. Mas poucos carregam uma história tão densa de coragem e sacrifício quanto o USS Samuel B. Roberts. Conhecido pelos próprios marinheiros como “Sammy B”, o contratorpedeiro americano foi afundado em combate em 25 de outubro de 1944, nas águas das Filipinas, após enfrentar uma frota japonesa imensamente superior em poder e número.
Por 78 anos, o navio descansou em silêncio no fundo do Mar das Filipinas, mais profundo do que qualquer outro naufrágio já localizado e estudado na história da exploração submarina. Em 22 de junho de 2022, a expedição liderada pelo explorador Victor Vescovo, fundador da Caladan Oceanic, finalmente encontrou os destroços — e confirmou o que ninguém tinha certeza de conseguir: o Sammy B estava ali, intacto o suficiente para contar sua história.
A descoberta foi confirmada oficialmente pela Marinha dos Estados Unidos em 25 de junho de 2022, tornando-se um marco tanto da exploração submarina quanto da memória histórica da Segunda Guerra.
A profundidade que coloca o naufrágio em uma categoria própria
O USS Samuel B. Roberts foi localizado a uma profundidade de 6.895 metros no Mar das Filipinas, tornando-se oficialmente o naufrágio mais profundo já identificado e documentado da história. Para ter uma ideia da escala, o pico do Monte Kilimanjaro, na África, tem 5.896 metros de altura — o Sammy B repousa quase um quilômetro abaixo disso.
Cerca de 98% dos oceanos do mundo são mais rasos do que a profundidade em que o naufrágio foi encontrado. Essa condição extrema, com pouca luz, temperatura próxima de zero e pressão esmagadora, ironicamente ajudou a preservar os destroços em um estado surpreendente após décadas no fundo do oceano.
O navio se encontra partido em dois pedaços, que repousam a cerca de 10 metros de distância um do outro, sobre a encosta do fundo marinho. Mesmo assim, as estruturas foram descritas como bem conservadas, e ainda eram visíveis os buracos de projéteis — especialmente na popa — deixados pelas batalhas que levaram o navio ao fundo.
Agora que o naufrágio foi identificado oficialmente, o local passa a ser considerado uma embarcação militar afundada do Departamento da Marinha dos EUA, protegido pela Lei de Embarcações Militares Afundadas. Violações podem acarretar multas de até 100 mil dólares por dia, confisco do veículo utilizado e responsabilidade por danos causados.
A expedição que durou oito dias e precisou de tecnologia inédita
A Caladan Oceanic e a EYOS Expeditions realizaram seis mergulhos ao longo de oito dias, entre 17 e 24 de junho de 2022, em busca do Sammy B e também do porta-aviões USS Gambier Bay, a profundidades superiores a 6.500 metros. A missão foi repleta de incertezas — os registros históricos sobre a posição exata do naufrágio haviam se revelado imprecisos ao longo dos décadas.
A pesquisa histórica que orientou a expedição foi liderada pelo Tenente-Comandante Parks Stephenson, afiliado à Caladan Oceanic, o mesmo pesquisador que conduziu o trabalho que levou à descoberta do USS Johnston no ano anterior. Para a varredura do fundo, foi utilizado um sonar de profundidade Kongsberg EM-124, além de um sistema de sonar de varredura lateral montado no submersível — inédito em sua capacidade, operando a até 11 quilômetros de profundidade, enquanto o limite habitual para esse tipo de equipamento é de 6 quilômetros.
O primeiro sinal positivo veio em 18 de junho, quando a equipe localizou destroços que incluíam um lançador de torpedos de três tubos — característica única do Sammy B entre todos os navios afundados na região. Nos mergulhos seguintes, o corpo principal do naufrágio foi localizado, já partido em dois pedaços desde a descida ao fundo.
Quem foi Samuel B. Roberts e por que o navio levava seu nome
O USS Samuel B. Roberts foi batizado em homenagem a um marinheiro real, cujo ato de bravura marcou os primeiros anos do conflito no Pacífico. O Contramestre Samuel Booker Roberts Jr. morreu em combate durante a Batalha de Guadalcanal e foi o primeiro homem a ter um navio com esse nome em sua homenagem na Marinha dos EUA. O contratorpedeiro foi construído no estaleiro Brown Shipbuilding Company, em Houston, Texas, lançado ao mar em 20 de janeiro de 1944 e comissionado em 28 de abril do mesmo ano.
Menos de seis meses após entrar em serviço, o navio enfrentaria o maior e último combate de sua curta existência. Apesar de ser um navio de escolta pequeno e menos poderoso, o Sammy B atacou diretamente uma frota da Marinha Imperial Japonesa liderada pelo Yamato — o maior couraçado já construído — antes de ser afundado sob fogo inimigo nas águas das Filipinas.
A Batalha de Samar — o combate que se tornou lenda naval
A história do Sammy B é inseparável de um dos episódios mais estudados da guerra naval moderna. Em 25 de outubro de 1944, durante a Batalha de Samar — parte da maior batalha naval da história, a Batalha do Golfo de Leyte —, o contratorpedeiro integrava o Grupo de Tarefa conhecido como “Taffy 3”, composto por navios menores encarregados de proteger operações de desembarque americanas nas Filipinas.
O Samuel B. Roberts foi um dos três contratorpedeiros do Taffy 3 que enfrentaram a poderosa Força Central Japonesa do almirante Takeo Kurita, composta por navios de guerra, cruzadores pesados e o couraçado Yamato, que se aproximava dos porta-aviões de escolta americanos. A ação conjunta do Sammy B com o USS Hoel, o USS Heermann e o USS Johnston frustrou o avanço japonês — mas a um custo altíssimo.
A tripulação do navio era de 224 homens. Desses, 89 morreram em combate. Os sobreviventes — 120 ao todo — passaram até 50 horas agarrados a destroços e balsas no oceano antes de serem resgatados. O comandante da embarcação, o Tenente-Comandante Robert Copeland, declarou que foi uma honra liderar homens que foram ao combate contra probabilidades verdadeiramente esmagadoras.
O que Vescovo encontrou no fundo e o que isso significa para a história
Durante o mergulho de confirmação, em 22 de junho de 2022, Victor Vescovo pilotou o submersível Limiting Factor acompanhado do especialista em sonar Jeremie Morizet, da Deep Ocean Research. A dupla percorreu os destroços de proa a popa, documentando detalhes como o mastro tombado e a torre de canhão de popa — exatamente o local onde, segundo Vescovo, o artilheiro Paul H. Carr morreu tentando disparar um último projétil com a culatra quebrada do canhão.
De acordo com a Caladan Oceanic, todos os dados coletados durante os mergulhos — incluindo mapas de sonar, vídeos e fotografias — foram doados à Marinha dos Estados Unidos e ao seu Comando de História e Patrimônio Naval. Samuel J. Cox, almirante aposentado e diretor do Comando de História e Patrimônio Naval, afirmou que o local do naufrágio é um túmulo de guerra sagrado e serve para lembrar o custo que gerações anteriores pagaram pelas liberdades que hoje são tomadas como garantidas.
O recorde anterior — e como o próprio Vescovo o havia quebrado antes
A descoberta do Sammy B não foi a primeira grande façanha de Vescovo no fundo do Mar das Filipinas. Antes do Samuel B. Roberts, o naufrágio mais profundo já identificado e estudado era o USS Johnston — também um contratorpedeiro afundado na mesma batalha —, encontrado pelo próprio Vescovo no ano anterior a 6.469 metros de profundidade. O Sammy B supera essa marca em 426 metros.
A tecnologia desenvolvida para essa expedição também abre caminho para futuras descobertas ainda mais profundas. O novo sonar de varredura lateral de grande profundidade utilizado na expedição é descrito como o mais avançado já operado em um submersível, com capacidade de funcionamento até os 11 quilômetros — a profundidade total dos oceanos. Com esse equipamento, a equipe planeja investigar outras regiões do fundo oceânico ainda inexploradas.
O fundo do Mar das Filipinas guarda, portanto, não apenas destroços de ferro e aço, mas páginas inteiras de uma guerra que moldou o século XX — e a ciência está, lentamente, aprendendo a lê-las.