Sob as chaminés de fadas da Capadócia, a cidade subterrânea de Derinkuyu intriga com 18 níveis a 85 m de profundidade, espaço para 20 mil pessoas e séculos de história escondida
Maior cidade subterrânea já escavada, Derinkuyu permanece um enigma histórico com camadas de ocupação, engenharia sofisticada e defesa contra invasões em plena Anatólia
Debaixo das famosas chaminés de fadas da Capadócia, na Turquia, repousa a maior cidade subterrânea já escavada do mundo. Conhecida hoje como Derinkuyu e identificada na Antiguidade como Elengubu, ela alcança mais de 85 metros de profundidade, distribuídos em 18 níveis de túneis e galerias.
Estima-se que a cidade tenha abrigado até 20 mil habitantes por meses, protegendo populações em períodos de conflito e instabilidade. Com salas extensas, estábulos, adegas, escolas, vinícolas e capela, a infraestrutura indica planejamento cuidadoso e adaptação a um ambiente hostil.
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A história local reúne frígios, persas, seljúcidas e, sobretudo, comunidades cristãs da Era Bizantina. A ocupação quase ininterrupta por milênios contrasta com o abandono nos anos 1920, quando gregos capadócios migraram para a Grécia após a Guerra Greco-Turca (1919-1922).
Derinkuyu em números, a redescoberta em 1963 e a consagração como patrimônio
Segundo relato preservado por guias locais, como Suleman, a cidade foi “redescoberta” em 1963 quando um morador, intrigado com galinhas desaparecidas durante uma reforma, encontrou uma fenda na casa e, ao cavar, abriu caminho para uma passagem escura. Dali vieram à luz mais de 600 entradas ocultas em residências da região.
As escavações revelaram uma malha urbana subterrânea impressionante, conectada por corredores estreitos e pensada para defesa. Em 1985, a Capadócia foi inscrita como Patrimônio Mundial da Unesco, o que consolidou a proteção do sítio e impulsionou o turismo responsável. Em visitações relatadas em 5 de setembro de 2022, o ingresso custava 60 liras turcas (cerca de US$ 3,30 ou R$ 17 à época).
Quem construiu Derinkuyu, hipóteses históricas, fontes clássicas e achados arqueológicos
A origem exata permanece aberta, mas há pistas sólidas. A referência mais antiga atribuída a Derinkuyu aparece na obra Anábase, de Xenofonte de Atenas, escrita por volta de 370 a.C., descrevendo povos da Anatólia vivendo em casas escavadas no subsolo da Capadócia. Esse registro clássico reforça a antiguidade da prática.
Para Andrea De Giorgi, professor de estudos clássicos da Florida State University, a região é excepcionalmente propícia às escavações graças ao tufo vulcânico, rocha maleável e seca que pode ser moldada com pás e picaretas. A geomorfologia explica tanto as formas cônicas das chaminés de fadas quanto a viabilidade de cidades subterrâneas extensas.
Uma corrente atribui os níveis iniciais aos hititas, possivelmente em torno de 1200 a.C., quando teriam buscado refúgio durante ataques dos frígios. Achados de artefatos hititas no interior reforçam a hipótese, segundo o especialista A. Bertini, em estudo sobre arquitetura de cavernas no Mediterrâneo.
Já a expansão mais ampla costuma ser associada aos frígios, mestres em talhar rocha na Idade do Ferro. De Giorgi lembra que o reino frígio se estendia pela Anatólia ocidental e central, o que inclui a área de Derinkuyu. Ao longo dos séculos, a cidade foi reutilizada por diversos impérios, ganhando novas funções e defesas.
Planejamento urbano no subsolo, defesa, ventilação e vida cotidiana
Derinkuyu foi pensada para resistir. Corredores curtos e estreitos obrigam a passagem em fila e de cabeça baixa, dificultando intrusos. Portas de rocha circular de meia tonelada podiam trancar níveis inteiros e só eram movidas por dentro; aberturas centrais permitiam lanças para conter invasores. A cidade se beneficiava ainda de um sistema de ventilação que mantinha ar circulando ao longo dos 18 níveis.
O zoneamento era funcional. Estábulos ficavam próximos à superfície, diminuindo odores e gases e criando uma barreira térmica natural. Nas camadas internas havia moradias, adegas, escolas, espaços de reunião e uma capela, compondo um tecido urbano completo sob a terra.
Durante os séculos 7 e seguintes, em meio a ataques contra o Império Bizantino, o uso desses abrigos teria se intensificado, de acordo com pesquisas citadas por De Giorgi. Em escala regional, há evidências de mais de 200 pequenas cidades subterrâneas possivelmente conectadas, formando uma rede ampla de refúgio e logística.
| Elemento de Derinkuyu | Função principal |
|---|---|
| Corredores estreitos | Controle de fluxo e defesa contra invasores |
| Portas circulares de pedra | Bloqueio de níveis, proteção interna com abertura para lanças |
| Estábulos na superfície | Isolamento térmico e redução de gases no interior |
| Poços e dutos de ar | Ventilação e manutenção da habitabilidade em profundidade |
Da Bizâncio ao século 20, abandono grego, Vale do Amor e o turismo que revela camadas de história
A população subterrânea atingiu o auge na Era Bizantina, estimada em cerca de 20 mil pessoas vivendo por períodos prolongados sob a terra. Após a Guerra Greco-Turca (1919-1922), houve o abandono final pelos gregos capadócios e a cidade mergulhou no esquecimento.
Na paisagem da Anatólia central, o cenário do Vale do Amor contrasta com o mundo oculto abaixo. Hoje, visitantes percorrem passagens escurecidas por fuligem de tochas seculares e encaram a claustrofobia para entender como comunidades inteiras sobreviveram nesse labirinto planejado para resistir e durar.
Uma cidade planejada para resistir a invasões e ao tempo, Derinkuyu sintetiza a engenhosidade de povos que aprenderam a viver em profundidade.
FAQ, perguntas frequentes sobre Derinkuyu
- Quantos níveis e qual a profundidade de Derinkuyu?
Derinkuyu tem 18 níveis e chega a mais de 85 metros de profundidade, números que a colocam como a maior cidade subterrânea escavada conhecida.
- Quantas pessoas podiam viver na cidade subterrânea?
Estimativas apontam para até 20 mil habitantes vivendo por meses, com áreas de moradia, armazenagem, culto e educação no subsolo.
- Quando Derinkuyu foi redescoberta e como isso aconteceu?
Em 1963, um morador encontrou uma passagem durante uma reforma doméstica. Posteriormente foram identificadas mais de 600 entradas em casas da região.
- Quem são os possíveis construtores de Derinkuyu?
Há hipóteses que atribuem os primeiros níveis aos hititas por volta de 1200 a.C., com expansão posterior feita pelos frígios. A região foi reutilizada por persas, seljúcidas e, em massa, na Era Bizantina.
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