De quarto maior lago do mundo ao deserto tóxico, a má gestão da água secou o Mar de Aral e a recuperação parcial no norte mostra que é possível reverter danos se houver planejamento

Leito seco do Mar de Aral com barcos encalhados no deserto de Aralkum entre Cazaquistão e Uzbequistão
O antigo leito do Mar de Aral hoje exibe areia e barcos encalhados no deserto de Aralkum

Seca provocada por desvios para irrigação transformou o quarto maior lago do mundo, entre Cazaquistão e Uzbequistão, em deserto em poucas décadas

Entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral já foi o quarto maior lago do mundo, com cerca de 68 mil quilômetros quadrados e profundidade média de 20 metros. A partir das décadas de 1960 e 1970, porém, a água cedeu lugar à areia.

O motivo foi a construção de grandes sistemas de irrigação que desviaram os rios Amu Darya e Syr Darya para a produção de algodão em larga escala. Com a entrada de água reduzida de forma drástica, o Aral perdeu cerca de 90% de seu tamanho original.

A salinidade subiu, a pesca entrou em colapso e vieram o desemprego, o empobrecimento regional e problemas ambientais, como tempestades de sal e poeira. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de um caso emblemático de degradação causada por má gestão hídrica.

Nesse processo, o lago se dividiu em partes, o Grande Aral ao sul e o Pequeno Aral ao norte. A partir dos anos 2000, medidas de recuperação começaram, como o dique Kokaral, inaugurado em 2005, que elevou o nível da água ao norte e reduziu a salinidade; em 2008, o nível já havia subido 12 metros em relação ao ponto mais baixo de 2003.

De maior lago regional à areia, os desvios dos rios Amu Darya e Syr Darya para o algodão secaram o Mar de Aral

Antes da intervenção humana, o Aral era um regulador climático e um polo pesqueiro para cidades da Ásia Central. O desvio maciço das vazões de Amu Darya e Syr Darya para canais de irrigação reduziu a recarga natural do lago a uma fração do necessário.

Com menos água chegando, a evaporação superou as entradas, expondo o leito e concentrando sais. O resultado foi uma salmoura que inviabilizou espécies nativas e expulsou a atividade pesqueira, com efeitos sociais duradouros em comunidades inteiras.

Divisão entre Grande Aral e Pequeno Aral, impactos humanos e ambientais agravados pela salinidade

Conforme o nível baixou, o Aral se fragmentou. O Grande Aral, ao sul, seguiu encolhendo, enquanto o Pequeno Aral, ao norte, manteve alguma conexão com o rio Syr Darya. O colapso da pesca e as tempestades de sal e poeira passaram a prejudicar saúde e agricultura locais.

Essa transformação rápida alterou o microclima e intensificou extremos de temperatura. A perda do espelho d’água reduziu a umidade atmosférica e expôs solos contaminados por sais e resíduos agrícolas, ampliando os danos ambientais.

O quadro abaixo sintetiza mudanças-chave entre o período anterior aos desvios e o cenário posterior.

Antes da década de 1960Depois de 1970
Área de cerca de 68 mil km²Cerca de 10% do tamanho original
Profundidade média de ~20 mForte redução, grandes áreas rasas e leito exposto
Salinidade baixa a moderadaAlta salinidade, perda de espécies nativas
Pesca e empregos relevantesColapso da pesca e desemprego
Clima local moderadoTempestades de sal e poeira frequentes

Recuperação no norte, o dique Kokaral de 2005 elevou o nível do Pequeno Aral e trouxe peixes de volta

A construção do dique Kokaral em 2005 reteve a água do Pequeno Aral, reduzindo a fuga para o sul. Em 2008, o nível estava 12 metros acima do fundo histórico de 2003, a salinidade caiu e a pesca começou a se recuperar, com reflexos positivos na economia local.

Esse avanço, embora parcial, indica que obras bem planejadas e gestão das vazões podem restaurar serviços ecossistêmicos em prazos relativamente curtos. Segundo a ONU, o caso oferece lições valiosas para regiões áridas que dependem de rios compartilhados.

Para Ban Ki-moon, ex-secretário-geral da ONU, a região é “um dos piores desastres ambientais do planeta”.

O que resta ao sul, o deserto de Aralkum e as lições de gestão hídrica para o futuro

No sul, grande parte do antigo leito virou o deserto de Aralkum, considerado um dos desertos mais jovens do mundo. A poeira salina, misturada a resíduos agrícolas do passado, continua a gerar impactos à saúde e à agricultura.

O contraste entre norte e sul mostra que a degradação não é destino inevitável, mas uma consequência de escolhas. A experiência do Pequeno Aral evidencia que recompor fluxos e controlar a salinidade pode revitalizar ecossistemas e economias locais.

Especialistas ressaltam a necessidade de planejamento integrado de bacias, com metas de uso racional da água e avaliação ambiental rigorosa de projetos de irrigação. A cooperação entre países ribeirinhos é ponto central para evitar novos colapsos.

Embora o Grande Aral tenha sofrido perdas profundas, a recuperação parcial ao norte serve de referência prática. Onde há conexão com os rios e controle de vazão, a natureza tende a responder.

O Mar de Aral tornou-se símbolo das consequências da má gestão e, ao mesmo tempo, do potencial de correção de rumos. A história recente ilustra que decisões baseadas em evidências podem reverter danos quando adotadas a tempo.

Perguntas e respostas rápidas sobre o Mar de Aral

1) O que causou a secagem do Mar de Aral? Desvios dos rios Amu Darya e Syr Darya para irrigação de algodão nas décadas de 1960 e 1970 reduziram drasticamente a entrada de água.

2) Onde fica o deserto de Aralkum? No sul da área do antigo lago, principalmente no território do Uzbequistão, formado sobre o leito exposto do Grande Aral.

3) O que o dique Kokaral fez? Concluído em 2005, reteve água no Pequeno Aral, baixou a salinidade e, até 2008, elevou o nível em 12 metros sobre o mínimo de 2003.

4) É possível recuperar o Grande Aral? A situação é mais difícil ao sul, mas a experiência do norte indica que gestão hídrica eficiente e projetos bem planejados podem trazer ganhos locais.

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Geovane Souza
Geovane Souza

Criador de conteúdo com olhar atento para temas do cotidiano, curiosidades e assuntos que despertam interesse de forma leve e envolvente. Produz conteúdos sobre comportamento, cultura, estilo de vida, descobertas curiosas e tendências, sempre com uma abordagem acessível e próxima do público brasileiro.

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