Gasolina sintética sem petróleo ganha escala no extremo sul do Chile, corta até 90% do CO2 e mira 550 milhões de litros por ano até 2027 com apoio de Siemens Energy, HIF e Porsche

Combustível sintético em planta pioneira no Chile promete reduzir emissões e manter motores atuais em operação sem adaptações
Transparente e com cheiro moderado de álcool, a primeira gasolina sintética produzida em larga escala já sai da linha em Punta Arenas, no extremo sul do Chile. Na inauguração da planta industrial de combustíveis ecológicos realizada na terça-feira (20), o projeto Haru Oni marcou um passo concreto rumo à descarbonização do transporte sem trocar a frota existente.
Em uma sala reservada da usina, funcionários exibem três frascos que contam a evolução do processo. O primeiro é amarelo e com odor forte, o segundo é mais claro e, no último, o produto final aparece cristalino como água.
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Os chamados e-fuels podem abastecer carros, navios e aviões, com a promessa de reduzir em até 90% as emissões de CO2 frente aos combustíveis fósseis. O projeto reúne a Siemens Energy e a startup chilena Highly Innovative Fuels (HIF), entre outras parceiras internacionais.
Segundo executivos e autoridades envolvidas, trata-se de uma inovação que sai do campo das promessas e entra na operação industrial. A meta é ganhar escala rapidamente nos próximos anos.
Inauguração em Punta Arenas, detalhes do Haru Oni e a força dos ventos de Magallanes
A planta fica em Punta Arenas, região de Magallanes, onde os ventos intensos oferecem mais de seis mil horas de carga máxima para geração de eletricidade verde, cerca de três vezes a disponibilidade típica da Europa. Esse recurso natural é o pontapé inicial do processo produtivo.
O nome Haru Oni significa “ventos fortes” na língua indígena local e traduz o espírito do complexo. De acordo com a Siemens Energy e a HIF, a escolha da localização foi estratégica para maximizar a eficiência e a competitividade dos e-fuels.
Para André Clark, VP Sênior da Siemens Energy para a América Latina, “é uma das gasolinas mais limpas do mundo entrando em operação. É uma grande inovação sendo feita agora e não no futuro”. A mensagem foi reforçada por autoridades chilenas e alemãs presentes ao lançamento.
Como o e-fuel é produzido, do hidrogênio verde ao metanol sintético e à gasolina final
O processo começa com a eletrólise da água, que a separa em hidrogênio e oxigênio. Com energia eólica abundante, o hidrogênio obtido é combinado a dióxido de carbono (CO2), gerando e-metanol ou metanol sintético.
Na etapa seguinte, esse e-metanol passa por refino para se transformar em gasolina sintética. Segundo a HIF, o produto final mantém desempenho compatível com o motor atual e não exige adaptações mecânicas nos veículos.
| Aspecto | Gasolina fóssil vs e-fuel |
|---|---|
| Origem | Fóssil, extraída de petróleo vs Sintética, feita com hidrogênio e CO2 |
| Emissões de CO2 | Altas nas etapas de extração e combustão vs Até 90% menores considerando o ciclo |
| Compatibilidade | Compatível com frota atual vs Compatível sem adaptações |
| Matéria-prima energética | Combustível fóssil vs Energia renovável para eletrólise |
| Escalonamento | Infraestruturas maduras vs Projetos em rápida expansão |
Escala e metas de produção, do piloto de 750 mil litros aos 550 milhões por ano até 2027
Na fase piloto, a planta alcançou 750 mil litros por ano de e-metanol. Com a ampliação industrial, a meta anunciada é chegar a 55 milhões de litros de e-gasoline por ano até 2025.
O objetivo seguinte é ainda mais ambicioso, com 550 milhões de litros por ano até 2027, volume suficiente para mais de um milhão de pessoas dirigirem por quase um ano. Segundo a HIF e a Siemens Energy, a curva de aprendizado e a qualidade dos ventos locais sustentam essa aceleração.
Impacto nas emissões e na frota atual, uso em carros navios e aviões sem adaptações
Os e-fuels do Haru Oni são projetados para funcionar em motores existentes, o que reduz barreiras de adoção e custos de transição. Isso inclui carros, navios e aviões, ampliando o leque de aplicações em setores difíceis de eletrificar.
Em testes práticos, a parceira Porsche abasteceu um modelo Mobil 1 Supercup com o novo combustível, que rodou normalmente nas instalações. O desempenho reforça a viabilidade técnica do produto frente aos combustíveis fósseis.
Autoridades chilenas e alemãs destacaram que a iniciativa responde à urgência climática. O ministro de Energia do Chile, Diego Pardow, afirmou que o projeto simboliza um esforço necessário para mitigar as mudanças climáticas e abrir caminho a novas soluções.
“Esta planta é um símbolo de um desafio gigante, pois é preciso mitigar as mudanças climáticas. Isso mostra que muitas outras coisas também são possíveis.” — Diego Pardow, ministro de Energia do Chile
Parcerias globais e efeito regional, Porsche, Siemens Energy e oportunidade para o Brasil
O consórcio do Haru Oni reúne Siemens Energy, HIF e outras parceiras internacionais, em cooperação com governos do Chile e da Alemanha. Para André Clark, o aprendizado em Magallanes tem potencial de se replicar em outras regiões de vento forte.
Segundo o executivo, a qualidade do vento na Patagônia se assemelha à do Nordeste brasileiro, abrindo espaço para novos polos de hidrogênio verde e e-fuels. “O futuro da energia sustentável no planeta vai passar pelo Brasil e pelo Chile”, afirmou.
Perguntas frequentes sobre gasolina sintética e o projeto no Chile
1) O que é a gasolina sintética?
É um combustível produzido a partir de hidrogênio gerado por eletrólise e de CO2 capturado, convertido em e-metanol e depois refinado em gasolina. A proposta é reduzir o CO2 no ciclo de vida em até 90% frente à gasolina fóssil.
2) Onde fica a planta Haru Oni e por que lá?
A usina está em Punta Arenas, região de Magallanes, no sul do Chile. O local oferece mais de seis mil horas de carga máxima de vento por ano, cerca de três vezes o observado na Europa, favorecendo a produção com energia renovável.
3) Os veículos precisam de adaptações para usar e-fuel?
Não. Segundo a HIF e a Siemens Energy, a gasolina sintética é compatível com motores atuais, o que permite adoção imediata em parte da frota sem mudanças mecânicas.
4) Quais são as metas de produção?
Após um piloto de 750 mil litros por ano de e-metanol, a previsão é alcançar 55 milhões de litros de e-gasoline por ano até 2025 e 550 milhões por ano até 2027, suficiente para mais de um milhão de motoristas em um ano típico.
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