No deserto do Atacama, onde quase não chove e aquíferos milenares não se renovam, pesquisadores testam telas que captam água da neblina e levam esperança a 10 mil moradores sem abastecimento
Em uma das regiões mais secas do mundo, telas que captam água da neblina oferecem saída rápida e barata para a escassez
No deserto do Atacama, uma das áreas mais áridas do planeta, um experimento conseguiu extrair água diretamente da neblina. A proposta é simples e ousada, mas pode aliviar a falta crônica de água em comunidades que crescem rápido e seguem fora da rede. A estratégia mira sobretudo assentamentos informais, onde a conexão ao sistema de abastecimento não chega.
Segundo a equipe responsável pelos testes, a solução já demonstrou eficiência em campo e tem potencial de uso imediato em pontos críticos. Com telas instaladas em locais estratégicos, é possível condensar a umidade do ar e coletá-la em reservatórios. A tecnologia, embora conhecida, ganha tração ao ser medida com números concretos em uma área ultrasseca.
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O município de Alto Hospicio, no norte do Chile, serviu de base para a análise. Ali, a precipitação mal chega a 1 milímetro por ano, o que pressiona ainda mais os sistemas locais. O avanço urbano acelerado amplia a demanda enquanto as fontes tradicionais, como aquíferos, seguem sob pressão histórica.
Para dimensionar o desafio, a própria equipe relata que os aquíferos subterrâneos que abastecem a cidade não foram recarregados de forma adequada em um período estimado de 10 mil a 17 mil anos. Nesse cenário, cerca de 10 mil moradores vivem em assentamentos informais e dependem de soluções alternativas para garantir água no dia a dia.
Pesquisa em Alto Hospicio, a cidade do Atacama onde quase não chove, mostra potencial da água da neblina
O método testado obteve entre 0,2 e 5 litros de água por metro quadrado por dia, um intervalo que, na prática, pode significar abastecimento complementar para usos domésticos não potáveis e até potáveis, conforme tratamento e padrões locais. Essa variação depende de fatores como intensidade da neblina, direção do vento e posicionamento das telas.
Os pesquisadores descrevem que, em regiões com alta incidência de neblina costeira, o ganho diário pode se somar de forma relevante ao longo de semanas e meses. Em áreas de clima extremo como o Atacama, “cada gota conta”, tornando a eficiência por metro quadrado um indicador valioso para escalar a tecnologia.
Em termos práticos, o sistema é modular e pode ser instalado por etapas, com unidades adicionais conforme a necessidade. Isso reduz risco e custo inicial, além de permitir que comunidades desconectadas testem e adaptem o arranjo ao próprio terreno. Veja mais
Quanto de água existe no ar, o que dizem as estimativas do USGS e por que cada gota importa
De acordo com o United States Geological Survey (USGS), os oceanos e mares concentram mais de 96,5% da água do planeta. A atmosfera guarda apenas 0,001% desse total, e as nuvens, a neblina e a umidade do ar somam pouco menos de 13 mil km³, o que representa 0,04% da água doce mundial.
Embora pareçam números pequenos, em áreas de seca extrema como o Atacama, essa fração pode ser aproveitada de modo estratégico. Captar umidade atmosférica não substitui mananciais robustos, mas pode complementar com eficiência onde a chuva é rara e os aquíferos não se renovam em prazos humanos.
Números-chave do cenário hídrico do Atacama e do ar
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Água em oceanos e mares (USGS) | Mais de 96,5% do total |
| Água na atmosfera (USGS) | 0,001% do total |
| Nuvens, neblina e umidade do ar | Pouco menos de 13 mil km³, 0,04% da água doce |
| Chuva anual em Alto Hospicio | Cerca de 1 mm por ano |
| Coleta diária estimada | 0,2 a 5 L/m²/dia |
Desafios para escalar a tecnologia, custos, operação e impacto social nos assentamentos
Um ponto central é garantir operação contínua e manutenção simples das estruturas, sobretudo em zonas com ventos fortes e poeira fina. A escolha do local, o ângulo de instalação e a robustez das telas influenciam diretamente a produtividade e a durabilidade do sistema.
Outro desafio é integrar a qualidade da água coletada a padrões de uso. Em geral, o líquido obtido pode exigir filtração e desinfecção para consumo humano, o que implica planejamento e capacitação local. Mesmo para usos não potáveis, como limpeza ou irrigação leve, é preciso organização comunitária.
Em assentamentos informais, o benefício social pode ser imediato, já que 10 mil pessoas vivem à margem do abastecimento regular em Alto Hospicio. A modularidade permite começar pequeno e ampliar conforme recursos, reduzindo o custo por litro à medida que a rede de coletores cresce.
Na dimensão climática, o Atacama combina baixa precipitação e forte influência de neblina costeira, o que pode favorecer janelas sazonais de coleta. A gestão dessas janelas, com monitoramento local, potencializa o ganho médio diário e ajuda a priorizar pontos com maior retorno.
“A coleta e o uso de água, especialmente de fontes não convencionais, como a água da neblina, representam uma oportunidade fundamental para melhorar a qualidade de vida dos habitantes”, explicou Virginia Carter.
O que vem a seguir, próximos passos para pilotos e políticas públicas no Chile
Os resultados em Alto Hospicio indicam espaço para projetos-piloto ampliados, conectando universidades, prefeituras e organizações comunitárias. Com dados de campo, autoridades podem definir metas realistas para a captação de neblina e prever os custos de operação e de tratamento da água.
Em paralelo, políticas públicas podem incentivar a adoção em áreas críticas do Atacama, com treinamento local e linhas de financiamento para infraestrutura básica. Em um contexto em que aquíferos milenares não se renovam, diversificar fontes é mais que inovação, é estratégia de resiliência hídrica.
FAQ
1) Como funciona a coleta de água da neblina?
Em linhas gerais, telas expostas ao vento capturam microgotas presentes na neblina. As gotas se acumulam, escorrem por gravidade e são coletadas em reservatórios para uso local.
2) Quanta água pode ser obtida por dia?
Os testes em Alto Hospicio apontaram 0,2 a 5 litros por metro quadrado por dia, dependendo de condições como intensidade da neblina e ventos.
3) A água coletada é potável?
Pode ser, desde que receba tratamento adequado. Em muitos casos, ela é utilizada inicialmente para fins não potáveis, como limpeza e irrigação leve, até a implantação de rotinas de potabilização.
4) Por que essa solução é importante no Atacama?
Porque a região quase não recebe chuva e os aquíferos não são recarregados há 10 mil a 17 mil anos, segundo a equipe. Para cerca de 10 mil moradores sem rede, cada litro adicional ajuda a reduzir a vulnerabilidade.
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