A China soltou 1,2 milhão de coelhos no deserto — e o que aconteceu depois desafia tudo o que sabemos sobre recuperação ambiental e desenvolvimento econômico sustentável

Em uma das iniciativas ecológicas mais inusitadas dos últimos anos, a China transformou parte do deserto de Dalad Banner em terra produtiva usando coelhos da raça Rex como ferramenta central de combate à desertificação — com resultados que chamaram atenção até da ONU.

A desertificação é um dos problemas ambientais mais silenciosos e devastadores do planeta. Avança lentamente, engole pastagens, empurra populações e compromete a segurança alimentar de regiões inteiras. Até 2015, a área de terra desertificada na China havia chegado a 2,62 milhões de quilômetros quadrados — o equivalente a um terço do território total do país. Diante desse quadro, o governo chinês decidiu que plantar árvores não seria suficiente e partiu para uma abordagem radicalmente diferente.

A solução veio de onde ninguém esperava: coelhos importados da França, soltos às centenas de milhares em pleno deserto. A iniciativa, concentrada na região de Dalad Banner, na Mongólia Interior, surpreendeu o mundo tanto pela ousadia quanto pelos resultados.

O que parecia improvável se tornou um modelo reconhecido internacionalmente de recuperação ecológica integrada ao desenvolvimento econômico. E a história por trás disso é ainda mais fascinante do que o projeto em si.

O problema que a China precisava resolver com urgência

A desertificação não é um fenômeno novo na China, mas sua aceleração nas últimas décadas criou uma situação de urgência. Em 1988, o renomado cientista chinês Qian Xuesen expressou críticas profundas em relação às estratégias tradicionais de combate ao deserto. Ele argumentou que, embora o plantio de árvores e as medidas de contenção de areia sejam importantes, essas ações isoladas não são suficientes para resolver o problema da desertificação de forma fundamental. Ele propôs que a solução deveria envolver o desenvolvimento abrangente de toda a região, integrando pastagens, terras agrícolas e pecuária de maneira orgânica.

A ideia de Qian Xuesen encontrou eco entre empresários e investidores chineses. Muitos direcionaram recursos para essa terra negligenciada, chegando a planejar investimentos de até 750 milhões de yuan para estabelecer uma base de salgueiros em uma área de 121.000 hectares no deserto, com planos de expandir o reflorestamento para mais de 1 milhão de hectares de terras vizinhas.

O projeto precisava de mais do que árvores, porém. Precisava de uma espécie capaz de trabalhar o solo de forma contínua, barata e com alto rendimento reprodutivo. Foi então que a China olhou para os coelhos.

Por que coelhos — e por que justamente a raça Rex

A escolha dos animais não foi aleatória. A China introduziu 1,2 milhão de coelhos da raça Rex, originários da França, uma espécie conhecida por sua resistência e por sua capacidade de fertilizar o solo. Os animais alimentam-se de raízes e feno, e seus excrementos servem como fertilizantes naturais, favorecendo o crescimento da vegetação. Além disso, o movimento dos animais no solo contribui para a aeração da terra, tornando-a mais solta e fértil.

Esse ciclo simples e contínuo — comer, escavar, adubar — foi o que fez a diferença no longo prazo. Os coelhos Rex adaptaram-se perfeitamente ao ambiente árido, e a taxa de sobrevivência das plantas nas áreas onde atuavam chegou a 96%. Um índice impressionante para um solo que antes era considerado estéril.

Há também a questão da velocidade. A alta taxa de reprodução da espécie — com cada coelho gerando até 40 filhotes por ano — acelerou o processo de recuperação do solo, tornando o projeto escalável sem a necessidade de reintroduções constantes e custosas.

O que diferencia o modelo chinês do fracasso australiano

Quando o assunto é soltar coelhos em larga escala num ecossistema frágil, a sombra da Austrália paira sobre qualquer discussão. A introdução desordenada desses animais no continente australiano no século XIX resultou em uma das maiores pragas ecológicas da história, com destruição massiva de vegetação nativa e deslocamento de espécies locais.

O texto que analisa o projeto chinês faz um contraste direto com a Austrália: enquanto lá os coelhos se tornaram praga pela ausência de controle e predadores, na China a palavra que define tudo é “controle”. Os 1,2 milhão de coelhos não foram soltos para dominar a paisagem — eles ficam em criações integradas, dentro de um sistema desenhado com alimentação e produção ligadas ao objetivo de recuperar o solo fértil.

Essa diferença é fundamental. Não se trata de soltar animais livremente na natureza, mas de incorporá-los a uma cadeia produtiva supervisionada, onde cada etapa tem função ecológica e econômica definida.

A recuperação do solo e os resultados que chamaram atenção da ONU

Os efeitos sobre o ambiente foram expressivos e mensuráveis. A restauração da vegetação melhorou significativamente o ambiente ecológico do deserto, atraindo vida selvagem de volta à região e reduzindo a erosão do solo de forma consistente.

Um dos resultados mais notáveis veio abaixo da superfície. Relatórios apontam que, em cerca de 20 anos, o nível do lençol freático na região subiu entre 1,5 e 2 metros. Quando a água volta ao solo, a vida volta junto: mais plantas, mais fauna e mais estabilidade ambiental.

O impacto foi suficiente para atrair reconhecimento internacional de peso. A Organização das Nações Unidas reconheceu os esforços da China na região, designando os desertos do país como uma zona demonstrativa econômica ecológica global. Em fevereiro de 2023, especialistas agrícolas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos visitaram a área com interesse em replicar o modelo em seus próprios territórios áridos.

A cadeia econômica que sustenta o projeto no longo prazo

Nenhum projeto ambiental de longa duração sobrevive sem viabilidade econômica — e é aqui que o modelo de Dalad Banner se destaca ainda mais. Os coelhos não servem apenas ao solo. A carne dos coelhos Rex é considerada uma iguaria, e suas peles são altamente valorizadas pela indústria da moda, tornando a criação uma fonte de renda relevante para os moradores locais.

Com o projeto em plena operação, a renda anual média dos agricultores da região chegou a cerca de 20.000 dólares — um salto significativo em uma área que era considerada economicamente marginalizada. A transformação social acompanhou a ambiental.

O próximo passo foi ainda mais audacioso. Animados com os resultados, os agricultores expandiram suas atividades para o cultivo de batatas. Em uma área de 42.200 km², cerca de 12.000 agricultores cultivaram quase 1.620 hectares de batatas, atingindo uma produção anual de 1,7 milhão de quilogramas. Um deserto que não produzia nada passou a abastecer mercados.

A Grande Muralha Solar completa o quebra-cabeça

O projeto dos coelhos não está isolado. Ele faz parte de uma estratégia maior que a China vem construindo em Dalad Banner e em outros desertos da Mongólia Interior. Uma extensão de 133 quilômetros da chamada “Grande Muralha Solar” está sendo construída na região de Dalad, com uma largura média de 25 quilômetros. Com o projeto, a capacidade total de energia renovável da região deverá alcançar 19 milhões de kW até o final desta década, gerando uma produção anual estimada de 38 bilhões de kWh.

Há um detalhe engenhoso nessa combinação: a sombra dos painéis solares reduz a temperatura e a evaporação do solo, enquanto a estrutura também funciona como barreira contra o vento. Isso cria um microambiente onde a vegetação consegue crescer, algo raro em dunas expostas ao sol e ao vento contínuos.

O caso de Dalad Banner é frequentemente citado como referência internacional por ter conseguido enfrentar um dos maiores desafios ambientais do mundo: transformar um território dominado pela desertificação em uma região com vegetação, atividade econômica e organização social mais estável.

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