Ilha de Gardi Sugdub no Caribe está prestes a ficar submersa, comunidade Guna inicia saída histórica enquanto governo ergue moradias e projeta custo bilionário diante do avanço do mar

Primeira área do Panamá a ser abandonada por mudanças climáticas, Gardi Sugdub prepara a mudança de cerca de 300 famílias em junho de 2024
A ilha de Gardi Sugdub, no arquipélago de San Blas, província indígena de Guna Yala, tornou-se o primeiro ponto do Panamá a ser desocupado por causa da subida do nível do mar. Com apenas cerca de 400 metros de comprimento por 150 metros de largura, a ilha oval é cercada por pequenos portos onde os moradores amarram seus barcos.
Nesta semana de junho de 2024, aproximadamente 300 famílias começam a arrumar seus pertences para partir rumo ao continente. O governo panamenho construiu uma nova comunidade, com investimento de 11 milhões de euros, a pouco mais de 2 quilômetros do porto, distância percorrida em cerca de oito minutos de barco.
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A jovem Nadín Morales, 24 anos, descreve tristeza por deixar a casa e o vínculo diário com o mar, onde a pesca e o banho fazem parte da rotina e do turismo local. Ela se prepara para a transferência junto com a mãe, o tio e o namorado, diante do avanço constante da água sobre a ilha.
O professor Evelio López, 61, lembra que a cultura Guna tem mais de 200 anos ligada ao mar e teme impactos econômicos e culturais ao migrar para a floresta no continente. Para ele, abandonar atividades tradicionais e se adaptar a uma nova paisagem será um desafio de longo prazo.
Primeira área do Panamá abandonada por causa do mar, Gardi Sugdub inicia realojamento
Segundo autoridades locais, a decisão de saída vinha sendo debatida pelo governo autônomo Guna há cerca de 20 anos, inicialmente pela falta de espaço na ilha. O agravamento das mudanças climáticas e as tempestades mais intensas aceleraram a medida.
Nos últimos anos, a combinação de mar mais alto, cheias recorrentes e aquecimento oceânico, alimentado por eventos como o El Niño, tornou a vida na ilha cada vez mais difícil. Moradores ainda tentaram conter a água com pedras e estacas, mas os reforços não foram suficientes.
Agora, a prioridade é garantir segurança e continuidade dos laços comunitários, com moradias planejadas em áreas próximas e acesso rápido por via aquática. A orientação oficial é que o processo ocorra de forma gradual, respeitando decisões familiares.
Cultura Guna diante da mudança, perdas emocionais e desafios econômicos no continente
A transição mexe com identidades e práticas de subsistência dos Gunas, que dependem do mar para pesca e turismo. Mesmo com o risco crescente de inundações, parte da população prefere permanecer enquanto for possível, preservando rituais, artesanato e redes de apoio.
As autoridades panamenhas reforçam que ninguém é obrigado a sair contra a vontade. A migração busca conciliar segurança, direitos culturais e estratégias de renda, sem romper totalmente com o modo de vida tradicional.
Infraestrutura na nova comunidade, casas de concreto e acesso rápido por barco
O conjunto habitacional construído pelo governo do Panamá tem casas de concreto dispostas em uma malha de ruas pavimentadas, em meio à floresta tropical. O desenho urbano pretende oferecer serviços básicos e estrutura para atividades econômicas compatíveis com a nova localização.
O deslocamento até a ilha segue acessível por barco em cerca de oito minutos, o que favorece a manutenção de vínculos e a circulação de bens e pessoas. A proximidade também pode facilitar o turismo controlado e a continuidade de ofícios tradicionais.
| Item | Dados principais |
|---|---|
| Dimensões da ilha | cerca de 400 m x 150 m |
| Famílias em realojamento | aproximadamente 300 |
| Custo das novas moradias | 11 milhões de euros |
| Distância ao continente | pouco mais de 2 km |
| Tempo de barco | cerca de 8 minutos |
Para mitigar perdas, líderes comunitários discutem capacitação, apoio psicossocial e formas de complementar a renda sem romper com saberes tradicionais. O êxito do plano depende da inclusão dos moradores na gestão e do acesso contínuo a serviços públicos.
Mudanças climáticas e elevação do nível do mar no Caribe, evidências e projeções até 2050
De acordo com Steven Paton, diretor do programa de monitoramento do Smithsonian Institution no Panamá, a retirada de Gardi Sugdub é consequência direta do aumento do nível do mar. As ilhas povoadas da região estão, em média, apenas meio metro acima do mar, condição que acelera a exposição a marés e tempestades.
“Todas as costas do planeta já sofrem os efeitos, ainda que em ritmos distintos”
Projeções apontam que, até o fim do século, muitas ilhas do arquipélago de San Blas podem se tornar inabitáveis se a tendência de elevação persistir. A adaptação exigirá planejamento urbano, proteção de ecossistemas costeiros e financiamento estável.
Segundo a Direção de Alterações Climáticas do Ministério do Ambiente do Panamá, com apoio de universidades panamenhas e espanholas, o país pode perder cerca de 2,01% do território costeiro até 2050 por causa do mar em ascensão. O dado reforça a urgência de políticas de adaptação e realojamento planejado.
A diretora de alterações climáticas do ministério, Ligia Castro, estima que o realojamento de aproximadamente 38 mil habitantes em zonas costeiras afetadas custará cerca de 1,10 bilhão de euros. Esses valores mostram o impacto econômico da crise climática sobre orçamentos nacionais e comunidades vulneráveis.
Enquanto alguns moradores de Gardi Sugdub optam por permanecer até o limite possível, cresce o consenso técnico de que a proteção de vidas e culturas exige medidas antecipadas. O caso panamenho ilustra um desafio global, do Caribe ao Pacífico, em que adaptação e justiça climática caminham juntas.
Perguntas e respostas, o que muda com a saída de Gardi Sugdub
1. Por que Gardi Sugdub está sendo desocupada?
Pelo avanço do nível do mar, agravado por tempestades e aquecimento do oceano, que torna a ilha cada vez mais vulnerável a inundações.
2. Quantas famílias serão realocadas e para onde?
Aproximadamente 300 famílias estão sendo transferidas para um conjunto de casas de concreto no continente, a pouco mais de 2 quilômetros do porto.
3. Quanto custa o projeto e quem coordena?
O governo do Panamá investiu cerca de 11 milhões de euros na nova comunidade e planeja políticas de adaptação por meio do Ministério do Ambiente.
4. O processo é obrigatório para todos os moradores?
Não. As autoridades informam que ninguém é obrigado a sair contra a vontade, ainda que haja recomendações por segurança e planejamento futuro.
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