Esconderijo de alimentos de quase mil anos é achado no Alasca, confirma presença Dene na enseada Cook e abre nova janela para a história de Anchorage antes de 1914

Armazém subterrâneo com datação de 960 anos é identificado na Base Conjunta Elmendorf-Richardson, na enseada Cook, reforçando evidências sobre Dena’ina e Ahtna no centro-sul do Alasca
Pesquisadores que investigavam a enseada Cook, no centro-sul do Alasca, localizaram uma abertura no solo que funcionou como armazém de alimentos de povos Dene. O achado foi feito dentro do sítio arqueológico da Base Conjunta Elmendorf-Richardson (JBER), área de trânsito histórico rumo a pesqueiros de Anchorage, segundo a liderança local.
De acordo com a equipe do JBER, a datação por radiocarbono indicou 960 anos, com margem de erro de ± 30 anos. A arqueóloga Liz Ortiz, gerente do programa de recursos culturais da base, destacou a relevância do resultado para compreender a ocupação antiga na região.
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Segundo Aaron Leggett, presidente da Aldeia de Eklutna, a trilha que leva ao JBER era usada pelos Dena’ina para alcançar áreas de pesca em Anchorage. O envolvimento de anciãos e guardiões do conhecimento tradicional foi decisivo para contextualizar o sítio e seus usos.
Como o esconderijo foi identificado, localização na enseada Cook e método de datação
O armazém foi identificado em uma área elevada que domina a enseada, o que favorecia armazenamento a baixas temperaturas e vigilância do entorno. A confirmação cronológica veio por datação por radiocarbono, aplicada a materiais orgânicos preservados no interior da estrutura.
Para a arqueóloga Margan Grover, há sítios muito antigos no Alasca, com registros de até 14 mil anos, mas a instabilidade do solo no centro-sul dificulta a preservação. Isso torna o achado de um esconderijo dessa idade, deste lado do Inlet, especialmente raro e informativo.
O que havia no armazém, indícios de alces e renas e por que não surgiram vestígios marinhos
A estrutura mede cerca de 106 centímetros de profundidade e estava forrada com cascas de bétula, segundo Grover. Esse revestimento provavelmente funcionava como barreira contra umidade e pragas, ajudando a afastar roedores e preservar carnes.
Pela proximidade com a água, os especialistas esperavam encontrar traços de peixes ou mamíferos marinhos. No entanto, de acordo com Ortiz, as evidências apontaram para animais terrestres, como alces e renas, o que sugere uma estratégia de subsistência mais diversificada do que se imaginava para o local.
Os materiais recuperados ainda estão em estudo para diferenciar o que foi efetivamente armazenado do que pode refletir apenas a fauna circulante. A equipe pretende avaliar o solo nos arredores para confirmar se as carnes depositadas eram para consumo imediato, sazonal ou de longo prazo.
O padrão do achado se alinha a práticas de grupos do Ártico e Subártico que criavam depósitos subterrâneos para manter alimentos estáveis por meses. No contexto Dene, a proximidade com rotas de pesca e caça reforça o uso do local como ponto logístico.
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Local do achado | Base Conjunta Elmendorf-Richardson (JBER), enseada Cook, centro-sul do Alasca |
| Datação | Radiocarbono indicando 960 ± 30 anos |
| Profundidade | 106 cm |
| Revestimento interno | Cascas de bétula para proteção e isolamento |
| Indícios faunísticos | Presença de alces e renas |
Povos Dene, Dena’ina e Ahtna, conexões com Eklutna e Knik e a história anterior a 1914 em Anchorage
Os Dene formam um dos primeiros grupos indígenas das regiões boreais e árticas ao norte canadense. No que hoje é o Alasca, destacam-se as civilizações Dena’ina e Ahtna, cuja presença é reconhecida em áreas de pesca e acampamentos sazonais próximos à enseada Cook.
No local do achado, havia um entalhe em forma de T em uma bétula, e anciãos de Eklutna relataram que o símbolo identificava o acampamento de peixes da família Theodore, ligada às tribos Eklutna e Knik. Para Grover, isso ajuda a iluminar uma história anterior à fundação de Anchorage em 1914, mostrando que populações indígenas administravam essas terras muito antes da cidade moderna.
Próximos passos da pesquisa, degradação do solo no centro-sul do Alasca e a importância de ouvir os anciãos
Os arqueólogos planejam retornar ao sítio para investigar a geoquímica do solo e a microestratigrafia nos arredores do esconderijo. O objetivo é detalhar como as carnes eram acondicionadas, por quanto tempo e em que período do ano, refinando a interpretação do uso do depósito.
Segundo Grover, a instabilidade dos solos no centro-sul do Alasca acelera a degradação de sítios, o que torna descobertas como esta uma espécie de cápsula do tempo. Apesar de impactos humanos recentes, as terras Dene hoje abrigam cerca de metade da população do Alasca, e áreas preservadas ganham valor científico e cultural.
Para Angela Wade, responsável pela preservação histórica tribal da vila de Chickaloon, pesquisa arqueológica e memória indígena caminham juntas para recompor narrativas. O trabalho colaborativo com anciãos tem sido apresentado como caminho para preencher lacunas e evitar leituras incompletas do passado.
Cada novo sítio analisado ajuda a reconstruir histórias indígenas que foram fragmentadas ao longo do tempo.
FAQ
1) O que foi encontrado?
Um esconderijo subterrâneo de alimentos associado a povos Dene, dentro da Base Conjunta Elmendorf-Richardson, na enseada Cook, no centro-sul do Alasca.
2) Qual a idade do armazém e como foi medida?
A estrutura foi datada em 960 ± 30 anos por radiocarbono, segundo a equipe arqueológica do JBER.
3) Que vestígios de fauna foram identificados?
Apesar da proximidade com a água, surgiram evidências de alces e renas, e não de peixes ou mamíferos marinhos.
4) Por que a descoberta é importante para a história local?
O achado reforça a presença de Dena’ina e Ahtna na região, ilumina práticas de subsistência anteriores a 1914 e ajuda a superar lacunas provocadas pela degradação do solo no centro-sul do Alasca.
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