Vulcão esquecido no Pacífico derrubou a temperatura do Hemisfério Norte em 1831, estudo identifica Zavaritskii nas Ilhas Kuril como origem do resfriamento

Estudo identifica o Zavaritskii nas Ilhas Kuril como origem da erupção de 1831 e explica o resfriamento global de 1°C no Hemisfério Norte
Um vulcão até então desconhecido para a ciência moderna foi o responsável por um dos maiores resfriamentos súbitos do século 19. Em 1831, uma erupção lançou tanto dióxido de enxofre na estratosfera que a temperatura média anual do Hemisfério Norte caiu cerca de 1°C (1,8°F), segundo análise publicada na segunda-feira (30) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Os autores identificam o culpado como o vulcão Zavaritskii (também grafado Zavaritsky), na Ilha Simushir, parte das Ilhas Kuril, no noroeste do Pacífico, região disputada por Rússia e Japão. A descoberta resolve um enigma de quase dois séculos, já que a data da erupção era conhecida, mas não a sua localização exata.
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Segundo a equipe liderada pelo Dr. William Hutchison, da Universidade de St Andrews (Reino Unido), a evidência decisiva veio da combinação de geoquímica, datação e modelagem atmosférica. O trabalho recupera um capítulo-chave do fim da Pequena Era do Gelo, um período frio que se estendeu do início dos anos 1400 até cerca de 1850.
Para além do avanço científico, o estudo reforça como erupções em áreas remotas podem ter impactos globais e duradouros. Em 1831, condições mais frias e secas foram registradas no Hemisfério Norte, e relatos de fome se espalharam por Índia, Japão e Europa, afetando milhões de pessoas.
Como o enigma foi solucionado com núcleos de gelo, partículas microscópicas e simulações de transporte atmosférico
A peça central da investigação foram núcleos de gelo da Groenlândia, nos quais a equipe mediu isótopos de enxofre, grãos de cinza e minúsculos fragmentos de tefra. Em 1831, a deposição de enxofre foi 6,5 vezes maior na Groenlândia do que na Antártida, um sinal claro de fonte em latitudes médias do Hemisfério Norte, e não nos trópicos.
Os pesquisadores também compararam quimicamente fragmentos de vidro vulcânico de até 0,02 milímetro (0,0008 polegada). As correspondências mais próximas apareceram no Japão e nas Kuril, e amostras de campo de Simushir forneceram o encaixe que faltava com a caldeira de Zavaritskii. Datação por radiocarbono situou a formação da cratera após uma erupção massiva entre 1700 e 1900.
Por que o Zavaritskii ficou fora do radar e foi confundido com um vulcão tropical por décadas
Localizado entre o Japão e a Rússia, o Zavaritskii fica numa ilha extremamente remota, sem moradores e com registros históricos escassos, limitados a diários de navios que passavam esporadicamente. Antes deste estudo, a última erupção conhecida do vulcão remontava a 800 a.C., o que ajudou a mantê-lo fora das hipóteses principais.
Por muito tempo, a erupção de 1831 foi atribuída a um vulcão tropical, como o Babuyan Claro, nas Filipinas. Mas, segundo o climatólogo Dr. Stefan Brönnimann, da Universidade de Berna (Suíça), a nova evidência mostra que o evento ocorreu nas Kuril, alterando uma narrativa consolidada e corrigindo a localização do episódio.
Hutchison descreveu como “um genuíno momento eureka” a análise lado a lado das cinzas do núcleo de gelo e das amostras de campo da caldeira. Com o ajuste geoquímico, a modelagem das trajetórias das partículas e o volume da cratera, o Zavaritskii se tornou o principal candidato para a erupção de 1831.
| Evento | Principais dados |
|---|---|
| Zavaritskii, 1831 | Kuril, noroeste do Pacífico; queda de ~1°C no Hemisfério Norte; enxofre 6,5x maior na Groenlândia vs Antártida |
| Tambora, 1815 | Indonésia; grande erupção; impacto climático global e ano sem verão |
| Cosegüina, 1835 | Nicarágua; erupção significativa no mesmo período frio |
| Desconhecido, 1808/1809 | Origem ainda não identificada; contribuiu para o resfriamento do início do século 19 |
Impactos climáticos e humanos no fim da Pequena Era do Gelo, com fomes disseminadas entre 1808 e 1835
A sequência de quatro grandes erupções entre 1808 e 1835 marcou o declínio da Pequena Era do Gelo. Em média, as temperaturas anuais no Hemisfério Norte caíram 0,6°C (1,1°F) nesse período, e alguns locais ficaram até 2°C mais frios por décadas.
Além do Zavaritskii, duas erupções são bem documentadas: o Monte Tambora (Indonésia), em 1815, e o Cosegüina (Nicarágua), em 1835. A erupção de 1808/1809 ainda é atribuída a um vulcão desconhecido, o que evidencia lacunas na vigilância global.
Após 1831, relatos descrevem condições mais frias e secas no Hemisfério Norte. Fomes e dificuldades generalizadas se seguiram em regiões como Índia, Japão e Europa, com perdas agrícolas que atingiram milhões de pessoas, conforme ressaltam os autores do estudo.
Para Hutchison, é plausível que o resfriamento induzido por aerossóis vulcânicos tenha levado a falhas de colheita, embora fatores sociopolíticos também devam ser considerados. Já Brönnimann avalia que a nova peça do quebra-cabeça fortalece a confiança no papel das erupções na última fase daquele período frio.
“Não temos realmente uma comunidade internacional coordenada para entrar em ação quando a próxima grande erupção acontecer.”
O alerta sublinha a vulnerabilidade atual. Muitos vulcões permanecem em locais remotos e são mal monitorados, o que dificulta prever quando e onde ocorrerá a próxima erupção de grande magnitude com impactos climáticos amplos.
O que a descoberta muda para o monitoramento de risco e para o planejamento climático
Segundo a Universidade de St Andrews e os resultados apresentados no PNAS, reconhecer o papel do Zavaritskii amplia o foco da vigilância além dos trópicos. A lição é clara e prática, inclusive para políticas públicas de clima e segurança alimentar.
Erupções em latitudes médias podem injetar aerossóis suficientes na estratosfera para afetar safras, água e energia muito além da zona do vulcão. Investir em redes de monitoramento, consolidar protocolos internacionais de resposta e integrar dados de gelo, satélite e campo são passos decisivos.
O caso de 1831 mostra que a ciência forense do clima, baseada em núcleos de gelo e assinaturas geoquímicas, pode reconstituir eventos esquecidos e orientar a preparação para choques climáticos rápidos e globais.
Perguntas frequentes
1) O que exatamente foi descoberto sobre a erupção de 1831?
Os cientistas ligaram a erupção ao vulcão Zavaritskii, na Ilha Simushir, nas Ilhas Kuril. O evento lançou dióxido de enxofre suficiente para reduzir em cerca de 1°C a temperatura média anual do Hemisfério Norte.
2) Onde fica o vulcão Zavaritskii e por que quase não há registros?
Ele está no noroeste do Pacífico, entre Rússia e Japão, em área remota e disputada. Não há população local, e os registros históricos do século 19 se limitam a diários de navios que passavam esporadicamente.
3) Como os pesquisadores chegaram a essa conclusão?
Combinando núcleos de gelo da Groenlândia, análise de tefra de até 0,02 mm, datação por radiocarbono e modelagem de trajetórias de partículas. A evidência geoquímica casou com amostras da caldeira de Zavaritskii.
4) Quais outras erupções marcaram o período e qual foi o contexto climático?
Tambora em 1815 e Cosegüina em 1835 são marcos conhecidos, e há uma erupção de 1808/1809 ainda sem vulcão identificado. Tudo isso ocorreu no declínio da Pequena Era do Gelo, que durou do início dos anos 1400 até cerca de 1850.
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