Tecnologia sustentável desenvolvida por pesquisador da UEPB transforma a vida de famílias no semiárido e é destaque na mídia nacional
Projeto de dessalinização solar leva água potável a comunidades rurais do Nordeste com baixo custo, instalação simples e resultados comprovados em campo
Uma tecnologia social simples e de baixo custo, criada na Universidade Estadual da Paraíba, está mudando a rotina de comunidades rurais do semiárido. Desenvolvido pelo professor Francisco José Loureiro Marinho, do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais (CCAA) da UEPB, campus II, em Lagoa Seca, o dessalinizador solar converte água salobra em potável e já beneficia mais de 100 famílias.
O projeto ganhou visibilidade nacional ao aparecer no Bom Dia Brasil em 6 de novembro de 2025, segundo informações institucionais da UEPB. A iniciativa reúne pesquisa acadêmica, participação comunitária e soluções práticas para a escassez hídrica crônica na região.
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As pesquisas começaram em 2010 e, desde então, a equipe instalou unidades em municípios da Paraíba, de Pernambuco e do Ceará. O avanço no campo foi viabilizado por diferentes fontes de financiamento público e privado.
De acordo com a UEPB, a tecnologia se destaca pela fácil montagem, manutenção acessível e produção diária suficiente para o consumo básico, fortalecendo a segurança hídrica e alimentar das famílias agricultoras.
Projeto da UEPB ganha repercussão nacional e leva água potável a mais de 100 famílias do semiárido
Apresentado em rede nacional, o dessalinizador solar chamou atenção por unir custo reduzido, replicabilidade e impacto social imediato. Segundo a universidade, a proposta nasceu de estudos contínuos no CCAA e da escuta ativa das comunidades atendidas.
O professor Francisco Marinho explica que a solução atende poços com água salobra, comuns em áreas do semiárido onde a salinidade inviabiliza o uso doméstico. A partir de pequenas unidades distribuídas em propriedades familiares, a água potável passa a ser produzida todos os dias com energia do sol.
Os investimentos vieram do Ministério do Meio Ambiente, do CNPq, da própria UEPB e do Banco Itaú, somando esforços de pesquisa, extensão e financiamento para chegar a quem mais precisa.
Como funciona o dessalinizador solar, materiais simples e manutenção fácil com sal aproveitado na produção
Construído com vidro, cimento e lona, o equipamento opera como uma estufa. A água salobra de poços é aquecida pelo sol até cerca de 70 °C; o vapor condensa no vidro, escorre por canaletas e vira água própria para beber. O sal não evapora, permanece na lona e a manutenção se resume a limpá-la periodicamente.
Em regiões onde a água dos poços chega a 7 g de sal por litro (acima do limite de 0,5 g/L para potabilidade), o sistema produz até 16 litros por dia, de acordo com o professor Marinho. As famílias agricultoras aproveitam o sal retido como complemento na alimentação animal, prática também pesquisada pela Embrapa Petrolina.
Dados técnicos e capacidade média
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Temperatura de operação | Até 70 °C |
| Produção diária estimada | Até 16 litros de água potável |
| Salinidade da água de poço | Até 7 g/L |
| Limite de potabilidade | 0,5 g/L |
| Materiais principais | Vidro, cimento e lona |
Da adaptação do irmão Urbano à expansão pelo Nordeste com apoio público e parcerias locais
O professor Marinho relata que a ideia é uma adaptação de um projeto do irmão Urbano, frade redentorista. A proposta original atendia canteiros econômicos de hortaliças, e a equipe da UEPB passou a utilizá-la para produzir água potável, inclusive de águas “mais salgadas que a do mar”, segundo o docente.
As primeiras unidades fora do campus foram construídas em 2012 no Assentamento Corredor, em Remígio, com recursos do CNPq. Houve período de testes com diferentes materiais até que a lona se mostrou a solução ideal, após sugestão de um agricultor local, por resistir à corrosão do sal e reduzir custos.
Em 2018, alunos criaram a Associação de Profissionais em Agroecologia (APA) para ampliar o alcance no Nordeste. O presidente, Wanderley Feitosa Viana, egresso de Agroecologia e do Mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental (MCTA) da UEPB, hoje cursa Agronomia e segue envolvido nas pesquisas e nas obras a campo.
A rede de unidades cresceu com instalações na Paraíba em Remígio (10), São Vicente do Seridó (10), Cubatí (4), Pedra Lavrada (4), Caraúbas (70), Monteiro (10), Camalaú (30), Santa Luzia (24), Soledade (10), Cuité (20), Campina Grande (5) e Caturité (5). Em Pernambuco, foram construídas 5 unidades em Sanharó, e no Ceará outras 5 em Icapuí, conforme dados da UEPB.
Segundo a universidade, a combinação de tecnologia sustentável, baixo custo e engajamento comunitário explica a rápida adoção e a continuidade do projeto, especialmente em áreas com escassez hídrica persistente.
“A tecnologia social mostrou, na prática, como resolver de forma simples e sustentável a falta de acesso à água potável no semiárido.”
Custos, modos de construção e impacto nas comunidades com exemplos de Campina Grande e Icapuí
De acordo com Wanderley Viana, há diferentes formas de erguer as unidades, por alvenaria com tijolos ou com placas pré-moldadas, variando o tempo de execução. As etapas mais delicadas são a calha, a bandeja e as entradas das bandejas, mas o restante é tão simples que, segundo ele, “qualquer pessoa sem treinamento consegue construir”.
O custo varia por município e logística. O primeiro modelo, em Campina Grande, ficou em torno de R$ 3 mil; em Icapuí, o valor foi de aproximadamente R$ 4,5 mil, porque a associação de moradores exigiu a aquisição local de todos os materiais, garantindo aprendizado de ponta a ponta. Em 2022, a família de Viana instalou um equipamento em Queimadas, reforçando a autonomia e a segurança hídrica e alimentar.
Para acompanhamento de políticas públicas relacionadas à água e à transparência, cidadãos podem utilizar o canal oficial de Acesso à Informação do Governo da Paraíba.
Perguntas frequentes
1) O que é o dessalinizador solar da UEPB?
É um equipamento que transforma água salobra de poços em água potável usando calor do sol. Foi desenvolvido pelo professor Francisco José Loureiro Marinho, do CCAA da UEPB, com pesquisas iniciadas em 2010.
2) Quanto custa construir e quanto produz?
O custo varia por local. Em Campina Grande, um modelo saiu por cerca de R$ 3 mil, e em Icapuí ficou em torno de R$ 4,5 mil. A produção diária estimada é de até 16 litros.
3) Onde já foram instaladas unidades?
Na Paraíba, em Remígio, São Vicente do Seridó, Cubatí, Pedra Lavrada, Caraúbas, Monteiro, Camalaú, Santa Luzia, Soledade, Cuité, Campina Grande e Caturité. Em Pernambuco, em Sanharó, e no Ceará, em Icapuí.
4) Como é a manutenção e o que fazer com o sal?
A manutenção é simples, com limpeza periódica da lona onde o sal fica depositado. Segundo a UEPB, famílias agricultoras aproveitam o sal como complemento na alimentação animal, prática estudada também pela Embrapa Petrolina.
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