Bilionários da tecnologia nos EUA correm para erguer estátuas colossais após remoções históricas, buscando símbolos de poder e alinhamento político
Investidores do Vale do Silício miram monumentos gigantes, impulsionados por política, estética clássica e disputa por símbolos públicos
Bilionários e investidores de tecnologia nos Estados Unidos estão financiando projetos de estátuas colossais e novos monumentos públicos, em um movimento que mistura política, estética clássica e estratégia cultural. O caso mais ambicioso é o de Ross Calvin, que quer erguer um Prometeu de 137 metros na ilha de Alcatraz, em São Francisco. A peça seria mais alta que a Estátua da Liberdade, que tem 93 metros, e teria a cabeça ultrapassando a Golden Gate.
Segundo Calvin, a ideia surgiu em 2018, ao notar o pôr do sol sobre a baía de São Francisco e “a ausência” de um símbolo à altura. Sete anos depois, o investidor trabalha para viabilizar o colosso como um marco dos “valores do Ocidente”. O plano ganhou tração após a derrubada ou remoção de estátuas confederadas e de monumentos impopulares, abrindo espaço para uma nova leva de obras com mensagem política explícita.
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O projeto de Calvin depende de que Donald Trump reclassifique Alcatraz — hoje parque nacional — como monumento nacional. Ele diz ter pausado a articulação durante o governo Joe Biden e que pretende apresentar a proposta, com imagens da estátua e de um museu de tecnologia, até o fim de janeiro. “Felizmente, meu negócio me dá um certo acesso extra ao governo”, afirma o investidor, que vive em Denver e administra uma empresa de mineração de Bitcoin com operações no Oriente Médio.
De acordo com Calvin, o custo estimado é de US$ 450 milhões, com a figura fundida em liga de níquel e bronze para refletir a luz ao longo do dia. Com 137 metros desde a linha d’água, o Prometeu seria visível de grande parte da baía e funcionaria como “ferramenta de afirmação” do que ele chama de dinamismo ocidental. O investidor, no entanto, não ignora o mito do titã punido por Zeus, um lembrete dos riscos da arrogância.
Quem são os novos homens dos monumentos e por que eles veem oportunidade política e cultural
Além de Calvin, nomes do Vale do Silício como Joe Lonsdale (cofundador da Palantir), Elad Gil e Mo Mahmood defendem uma guinada monumental. Lonsdale financia a promoção de “estética clássica”; Gil fala em “trazer de volta monumentos inspiradores em grande escala”; Mahmood organiza apoio para um mega George Washington com plano de revelar uma versão de 15 metros no 250º aniversário dos Estados Unidos no próximo ano. Eles atuam em IA, tecnologia de defesa e criptomoedas, áreas que ganhariam prioridade em um eventual segundo mandato de Trump.
Historicamente mais libertário e democrata, o ecossistema tech migrou à direita durante a pandemia, reagindo a políticas sanitárias e à percepção de hostilidade às big techs. O resultado é um híbrido descrito como hipercapitalista e hiperpatriótico, conectado a Mar-a-Lago e a desertores da área da baía, e que vê nos monumentos uma chance de disputar memória, inspiração e poder simbólico.
Projetos em números e marcos oficiais que alimentam a onda de estátuas gigantes
A figura mais influente por trás da retomada monumental é o próprio Trump. Em julho, o pacote de impostos e gastos de seu governo destinou US$ 40 milhões ao Jardim Nacional dos Heróis Americanos, previsto para retratar 250 personalidades em estilo neoclássico, incluindo George Washington, Billy Graham e Elvis Presley. O local ainda não foi definido, mas o gesto sinaliza uma política de exaltação cívica com linguagem clássica.
Em agosto, Trump assinou uma ordem executiva estabelecendo a arquitetura clássica como preferência para prédios cívicos. Também iniciou a construção de um salão dourado na Casa Branca e defendeu restaurar monumentos confederados. No início deste mês, um repórter encontrou planos para um arco triunfal em Washington, do outro lado do rio Potomac em relação ao Lincoln Memorial.
Calvin participou em dezembro da redação de uma carta com o arquiteto clássico Richard Cameron, entregue a Trump em Mar-a-Lago por Rodney Mims Cook Jr.. Após receber o documento sobre “renovação e enobrecimento” do país, Trump escreveu no Truth Social:
“A América vai começar a construir monumentos aos nossos grandes heróis e heroínas novamente!!!”
A Casa Branca não respondeu a pedido de comentário sobre as iniciativas. Calvin afirma que, graças aos negócios, mantém portas abertas em Washington e está confiante na reclassificação de Alcatraz. Segundo ele, a proposta formal ao time de Trump será apresentada até o fim de janeiro, detalhando a estátua e um museu de tecnologia na ilha.
Projetos em comparação, escala e avanço
| Iniciativa, proponente | Dimensão, custo e status |
|---|---|
| Prometeu em Alcatraz, Ross Calvin | 137 m, estimado em US$ 450 mi, liga de níquel e bronze, proposta a apresentar até o fim de janeiro |
| George Washington gigante, Mo Mahmood | Plano de 198 m, versão prévia de 15 m prevista para o 250º aniversário dos EUA no próximo ano |
| Jardim Nacional dos Heróis Americanos, governo Trump | US$ 40 mi reservados, 250 figuras em estilo neoclássico, local ainda indefinido |
| Arco triunfal em Washington, Casa Branca | Planos localizados no início do mês, área oposta ao Lincoln Memorial, sem cronograma público |
| Escultura privada de Priscilla Chan, Mark Zuckerberg | 2,1 m, contexto privado, referência à tradição romana de retratos |
Entre o privado e o público, como a elite de tecnologia comissiona esculturas e disputa memória histórica
Encomendas privadas ajudam a explicar a estética do momento. Mark Zuckerberg mandou fazer uma estátua de 2,1 metros de sua esposa, Priscilla Chan, dizendo “reviver a tradição romana”. Joe Lonsdale encomendou ao escultor escocês Alexander Stoddart uma obra das Três Graças em homenagem às filhas e financiou um busto neoclássico de Bari Weiss para a Universidade de Austin, fundada por Weiss e pelo historiador Niall Ferguson com apoio de Lonsdale.
Há precedentes de filantropia que moldaram o espaço público. Há cerca de um século, o investidor Paul Goodloe McIntire pagou quatro estátuas na Virgínia exaltando confederados e figuras ligadas ao deslocamento forçado de indígenas. Em 2017, tentativas de remoção — incluindo o Robert E. Lee de Charlottesville — motivaram o comício Unite the Right e uma marcha separada da Ku Klux Klan. Em 2021, em meio ao Black Lives Matter, todas foram retiradas.
Calvin afirma não ser “clássico por princípio” e escolheu um escultor futurista para o Prometeu. O titã que deu a tecnologia aos homens e foi condenado a ter o fígado devorado por uma águia, segundo o mito, virou metáfora do que ele chama de “originalidade ocidental”. Entre o apelo simbólico e a controvérsia histórica, a disputa por monumentos expõe como a elite tech tenta fixar no espaço público uma narrativa de patriotismo, excelência e poder.
FAQ
1) O que é o projeto da estátua de Prometeu em Alcatraz?
É uma proposta de Ross Calvin para erguer um Prometeu de 137 metros na ilha de Alcatraz, em São Francisco, mais alto que a Estátua da Liberdade.
2) Quanto custará e quem financia?
Segundo Calvin, o orçamento é de US$ 450 milhões, com estrutura em liga de níquel e bronze. O investidor lidera a captação e articulação do projeto.
3) Qual é o papel de Donald Trump nesse movimento?
Trump impulsionou uma agenda de monumentos e estética clássica, reservando US$ 40 milhões para o Jardim Nacional dos Heróis Americanos, assinando ordem executiva pró-clássico e acolhendo propostas como a de Calvin.
4) Quem mais do Vale do Silício está envolvido com novas estátuas?
Joe Lonsdale, Elad Gil e Mo Mahmood defendem ou financiam monumentos, incluindo um mega George Washington e encomendas neoclássicas em universidades.
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